quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Reeleição, só do lado direito...

Acredito que todos acompanham na mídia a situação que vive Honduras no momento. O presidente eleito Manuel Zelaya, que já vinha em exercício e que foi democraticamente eleito pela maioria dos votos do país foi deposto. Em seu lugar como presidente interino, ficou Micheletti, um dos seus “companheiros de partido”. Micheletti, tem o poder garantido pelas forças armadas e está suportando diariamente diferentes protestos públicos por parte daqueles que defendem a constituição, não necessariamente Zelaya.

A ruptura deu-se no momento em que Zelaya, vindo de um partido de direita, passou a defender mais os interesses populares, aproximando-se de uma linha governamental como à que Hugo Chavez e Evo Morales fazem na Venezuela e na Bolívia respectivamente. Da mesma forma que estes, entre outras medidas populares, ele aumentou o salário mínimo e vinha procurando meios para que pudesse se reeleger, ato que ainda não é legalizado em Honduras. Zelaya convocaria um plebiscito popular para saber se poderia executar essa reforma constitucional. Porém, antes disso, o congresso criou uma lei que impediria o presidente de tomar decisões sobre mudanças constitucionais, que estas mudanças deveriam partir apenas do congresso. Decidindo passar por cima do congresso hondurenho, Zelaya foi deposto e extraditado de cuecas de seu país, caracterizando um Golpe de Estado liderado pelas elites hondurenhas.

Desde que sofreu o golpe, Manuel Zelaya passou a percorrer os países latino-americanos em busca de apoio, com uma comitiva de aproximadamente 70 integrantes e mais a sua família. Manuel Zelaya passou por países como Argentina, Paraguai, México e de todos os países que o receberam, o Brasil foi o país que manteve o maior reconhecimento de Zelaya como presidente hondurenho. O Presidente Lula o recebeu com regalias de Chefe de Estado, com direito à reunião particular e tapete vermelho.

Agora, há duas semanas atrás, Zelaya voltou escondido a Honduras e foi abrigar-se na embaixada brasileira, com toda a sua comitiva. Sabendo que contava com o apoio do governo brasileiro, Manuel Zelaya está sob a proteção do Estado brasileiro em Honduras. O governo já assumiu o apoio ao presidente deposto e no momento assiste de fora as negociações entre os órgãos de apoio e o governo interino de Honduras. A OEA (Organização dos Estados Americanos) e a ONU (Organização das Nações Unidas) buscam achar uma forma de contornar pacífica e diplomaticamente a situação, contando com o apoio de países importante nas Américas, como Brasil e Estados Unidos.

Porém não venho aqui tentar identificar qual o lado certo ou errado, quem é o bem e quem é o mal nessa disputa. Venho dizer que não podemos pensar que o Brasil tem um papel apenas de observador nessa história hondurenha. Um país que é tão parecido com o Brasil, pois têm índices de desenvolvimento econômico e social que são bastante aproximados, vive uma situação política de crise e a meu ver essa situação nos faz pensar muito sobre o Brasil e sobre como a política mundial vem se desenvolvendo com o final da guerra fria.

O que pretendo destacar é como a reeleição pode ser vista em diferentes situações, já que este foi o maior motivo para que Manuel Zelaya sofresse o Golpe de Estado. No Brasil, o presidente Fernando Henrique também quis mudar a constituição brasileira, e conseguiu; de forma que um ano após ele fosse reeleito. Porém, o meio que ele utilizou para que pudesse se reeleger é, até hoje, um pouco desconhecido e controverso, motivo pelo qual deveríamos saber mais, porém com pouco destaque na mídia.

No mesmo momento que este embrolho vem se desenvolvendo em Honduras, o Presidente Colombiano, Álvaro Uribe, ficou mais próximo de seu terceiro mandato consecutivo. Reconhecido pelo seu combate contra o narcotráfico das FARC e agora recebendo o apoio dos Estados Unidos, nesta mesma batalha, e podendo até, ter em seu território uma base militar americana, para que o combate ao narcotráfico torne-se mais fácil (caso que também esteve na mídia alguns meses atrás). Porém, nenhum destes dois últimos casos, de FHC e Uribe, passaram pelo crivo das urnas populares, como queria fazer Zelaya. Não tendo passado pelas urnas, através de plebiscito, podem não representar realmente o que a população deseja, mas vale destacar que a mídia não faz essa crítica, hoje em dia, tampouco naquele tempo.

É um tanto quanto controverso dizer que Zelaya, Morales e Chavez são presidentes ditadores, ou que se colocam contra a tão intocável democracia defendida por todos estes órgãos que acima citei, já que se mantém no poder por seguidos mandatos. Se formos avaliar, tais presidentes têm, na sua maioria, o apoio popular em seus países e puderam reeleger-se depois de referendados pelas urnas. Porém, por defender mais o povo e em alguns momentos tomarem medidas bem mais próximas do socialismo não recebem o apoio dos países mais poderosos. Fazendo com que as suas reeleições sejam mal vistas e recebam tais críticas, já que representam certo perigo ao capitalismo e acabam ganhando essa conotação ditatorial que não é boa a ninguém.

Esta situação controversa nos demonstra apenas como os países mais importantes e mais desenvolvidos apóiam as reeleições. Não a veem como uma forma de demonstrar o que o povo quer, e sim como uma maneira de manter o controle sobre países de menor importância no cenário mundial. A meu ver, estes países poderosos e desenvolvidos comportam-se, nesta situação, com um pensamento assim: “Se este governo está alinhado ao meu modo de pensamento político e econômico, eu apóio a reeleição; se vai contra, mesmo que seja o que a população quer, eu me oponho.”. Demonstrando como os interesses destes nada têm a ver com a situação daquele ou deste país, tem a ver com as suas próprias intenções, na maioria dos casos aliadas aos interesses de uma elite rica e poderosa, que conta também com o apoio da mídia em seus países.

3 comentários:

  1. É...o que não faz ou faz, o apoio midiático. Algo que os futuros jornalistas podem ainda um dia enfatizar para um lado menos conservador, se assim posso dizer. Mandou bem no texto velho, eu tive uma leitura da situação parecida, poggeta.
    abraços

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  2. Estou por fora da situação em Honduras, mas aprendi um pouco aqui e gostei da análise.
    Para os que gostam e querem saber como o imperialismo e a mídia se unem quando os interesses do capital são afetados, vale ler "Fórmula para o Caos: a derrubada de Salvador Allende", do historiador brasileiro Moniz Bandeira (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008). Ali está bem elucidado como se instalaram as ditaduras na América Latina (principalmente Chile, mas também na Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai). Não deixa dúvidas de que lado ficaram os grandes órgãos de imprensa e os que, sob o manto de defesa da democracia, instigados pela CIA, tanta violência, usurpação e retrocesso trouxeram à nossa América Latina. Texto magnífico, elucidativo e apaixonante.
    Abraço
    Ricardo Beltrão

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  3. Luiza Helena da Silva Christov3 de outubro de 2009 08:15

    Adorei a análise, mas adorei mais ainda saber que este moço João Ernesto pensa fundo e transforma pensamento em palavras que mordem, que nos tocam. Estou aqui babando de orgulho.
    E deixo um Guimarães Rosa de presente:
    "O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo”
    Rompe muro, João, rompe.
    Luiza Christov

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